“Trabalhar servindo é o mais próximo que você pode chegar de ser invisível. É um trabalho escravo com remuneração. Porque para vocês terem uma ideia, agora eu escrevo isso num pedaço de cupom fiscal, com uma imensa vontade de ir no banheiro, mas eu nem isso posso, porque não tem ninguém para ficar aqui. Carne de porco realmente não me faz bem.”

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Ando sem Fome

 Até tomar água está sendo complicado, eu que sempre adorei comer bastante. Agora que tenho uma cozinheira de mão cheia, mamãe Carolina, ela também sabe cozinhar não é só uma mulher que gosta de ir no shopping, está fazendo coisas para mim, vendo se meu apetite aumenta. As vezes funciona, as vezes não. Estou preocupada porque tenho que me alimentar direito, porque estou tomando remédios. Mas, eu sei que essa fase vai passar. Ando tomando muita água, e talvez tenha ficado com algum trauma dos restaurantes que trabalhei.
 Mesmo com fome, as vezes não consigo comer. Tenho que me forçar porque sei que preciso. Todos devem se nutrir bem, mas eu tomando remédio tenho que me cuidar mais. Minha mãe Carolina está fazendo isso, e ao mesmo tempo temos resolvido muitas desavenças nossas. Está sendo bom tudo isso, que está acontecendo afinal de contas, apesar de acontecimentos sombrios que me aconteceram em hospitais, que eu não vou contar para não me expor muito.
 Mas comida de mais e toda hora é sinal de mãe Tantalizante, que eu já vi que minha mãe não é, ou deixou de ser. Significa que qualquer coisa que se faça por parte do bebê ou da criança. A mãe dá comida para ela, como se isso resolvesse tudo. Comida não é solução para tudo. Nem chamar a polícia resolve todos os problemas. Quem dirá a comida.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

É tanta Comida que se Perde a Fome

 Quando você trabalha em um restaurante vê tanta comida que acaba perdendo a fome. Ou até fica com nojo, de tudo. É tanto cuidado e limpeza que você tem que ter com as coisas, que isso, causa nojo. Eu me lembro até hoje do cheiro das coisas que se usava para limpar os pratos, e desinfetar a louça. A comida nem sempre era boa, mas quando era, horrível é você ficar vendo as pessoas comendo e não poder experimentar.
 Eu parecia um cachorro invisível babando olhando do lado da mesa de quem comia. Porque já fui cumim. Sabe o que é cumim, é alguém que fica só do lado da mesa esperando para tirar a sujeira do ambiente. Não é ruim não, mas é que você fica mesmo invisível, é um processo muito estranho. Você coloca o uniforme e é como se virasse a capa da invisibilidade do Harry Potter, você some imediatamente.
 Me lembro de um dia que trabalhei num hotel de cumim, para um evento, e fiquei muito deprimida. Ninguém me via, e eu atrapalhada que sou não tinha entendido a dinâmica do dia, acabei levando louça para o lugar errado. Até hoje me lembro da cara de escarnio que o gerente do hotel fez para mim, quando perguntei a ele onde deveria colocar as coisas. Também me lembro de uma menina que me fez ir atrás de um suco de pêssego, ou laranja... para ela. Achei aquilo horrível, ela podia ter se levantado para procurar. Mas eu tava lá para isso né? 
 E dá pra comer bastante também se você quiser, porque sobra muita comida, mas eu que já estava enojada não quis comer nada. Só tirei o uniforme que fica impregnado com o cheiro de tudo lá dentro. Um cheiro meio azedo, e meio de mofo. E voltei feliz para casa.